6.8.15

POEMA SINUOSO

À Andresa Cardoso

detrás da renda branca,
         brinca de ser menina.
  brinda com poesia
            em movimento
       na estática fotografia.

as cores se escondem
em forma de silhueta sinuosa.

detrás da renda branca,
       a poesia se alitera, fadada à imperfeições
  que transfiguram qualquer lógica feminina.

em madrugadas regadas à introspecção em poesia,
   toda a vida se apresenta em emaranhados brancos
               e pequenas frestas convidativas.

o sino anuncia meia-noite e ela ainda está nua.
ela: a menina por detrás da renda branca,
transpassando o conceito do pronome
e deixando nos lábios do poeta
qualquer coisa próxima ao sabor da maçã.

5.8.15

ÁGUAS DE QUASE AGOSTO

À Juliana Campos

agosto quase desponta no horizonte
          e chove na capital das minas gerais.
    a raridade das águas no céu nessa época do ano
                    condiz com sua presença pernambucana,
conduz sua rara visita aos caminhos onde o poeta
        percorre a fim de lavar a alma banhada no belo.

hospedar-se na esquina de santa rita durão
com a rua pernambuco
foi sua maneira de emendar as raízes que tem com
           a terra natal, vitória de santo antão.

quando bebe água da serra do curral
   na concha da mãos, tenho a certeza da veracidade
das palavras de quintana quando fala da não existência
      de nada mais puro no mundo do que esse gesto.

             mas basta a água escorrer pelos seus braços,
cotovelos e pernas, fazendo-a rir o riso de dó a si,
para perceber que existe sim algo mais puro no mundo.

        por um momento, vivi tal pureza em mim.

4.8.15

ARRITMIA POÉTICA

À Cely Vilhena

  não existe silêncio quando se nasce poeta.
o sopro que me acompanha diariamente não é
     apenas do prolapso da válvula mitral diagnosticado
desde tenra idade, mas do mundo em possibilidades.

palavras mansas me vêm em brisa
          ao passar a mão em formas delicadas de vida
que são as flores da praça - todas batizadas com
    nomes de mulheres que amo, amei ou ainda amarei.

         palavras duras me vêm em tornado
de velocidade cinco na tentativa de arrancar a dor
    no peito que se alicerça sete metros abaixo da terra
e torna-se bunker impenetrável até para as palavras
        mais explosivas catalogadas em dicionários.

palavras escritas em agosto carregam em si
        desgosto por seus significados e aplicações.
despejadas em forma bruta, sem nenhuma lapidação,
retratam sentimento imediato como corte em que
o sangue ainda não coagulou, escancarando
                a fragilidade da presença do humano.

  escrever é confessar a si mesmo
          a ignorância de não saber escrever,
de não aplicar o pronome possessivo
    à pessoa correta como manda a gramática,
          de não usar a vírgula quando a pausa exige,
 de repetir incessantemente a mesma palavra
           e não oferecer fôlego suficiente ao leitor
    quando o espaço entre dois pontos finais
             é maior do que o oxigênio armazenado.

escrever é jamais fechar-se em ponto final,
pois não existe nada mais belo do que reticências
em pulsações de arritmia registradas
    em eletrocardiograma ou mesmo em poesia.

3.8.15

POEMA HEREGE

Ao Carlos Drummond

pequenas
formas indeléveis
inda rompem o asfalto
da cidade
do rio de janeiro.

     para além de sessenta anos,

formas, asfalto e rio avolumam-se
          pelo caráter residual que os unem.

esse chão

onde se sentou em horário
de tamanhas procissões de crimes e angústias
- heresias desde os arcos de santa tereza
e a insubordinação mental no colégio anchieta -
             não é mais o da capital do país.

a administração pública federal
subiu a serra e seguiu trilhas de mourão
que cortam cidades mineiras
              e desembocam no planalto central.
- esse último, centro de todas as fezes -


                   resta ao rio guindastesauros

à espreita dos homens desarmados.
hoje esses homens se escondem debaixo da terra.

a saudade de tom não alça voo pelo galeão.

- e como fere ao atravessar a nascimento silva! -
o adeus de caymmi, como as ondas, vai
                     e volta no infinito das despedidas.

de costas para o mar de copacabana

- talvez carregando em si as dores de minas -
a incapacidade de se explicar desbota-se
           em uma foto de recordação para algum
     país residual do leste europeu.

31.7.15

POEMA INFERNAL

Ao Arthur Rimbaud

     enclausurado
em vinte metros quadrados,
   tendo a única janela da casa vista
para o nada infinito e infernal,
           comunico-me com os mortos
    para me sentir mais vivo.

rimbaud tem sido meu melhor amigo.
alimento-me de tua maldição e alma inquieta,
          tua perna amputada pouco antes da morte,
  teus maus poemas escritos com sangue,
                teus comércios assinados com bala.

viajo ao inferno ao teu lado
        para retornar a esse mundo
e concluir que o verdadeiro inferno
não passa de mais um dia comum.

o espelho revela minhas costelas tortas,
       meus cabelos oleosos, minha barba malfeita,
minhas manchas de sol impregnadas no rosto,
meus olhos míopes que não enxergam o caminho,
    minhas marcas de cirurgia de vesícula biliar,
               meus braços finos e meus joelhos gastos.

sendo avesso, não posso esperar que
     poemas que escrevo alcancem o futuro.

morrem em mim, palavras e rimas,
         delírios sem álcool percorrendo veias
que tão claramente saltam da pele clara
    enquanto a alma escura emudece.

afogo minha mente no travesseiro.
as paredes não me sufocam mais do que
                   o reverberar dos pensamentos.

30.7.15

ACABA MUNDO DEBAIXO DOS PÉS


caminho pela rua professor morais
em busca da perdida esperança de outrora,
mas só me resta o pesar de teu enterro
debaixo dos pés dos transeuntes.

sete palmos me separam do passado,
do córrego acaba mundo enjaulado enquanto
bestas mastigam cachorros-quentes com
teus dentes remendados pelos dentistas.

a velha casa da maria das tranças
espia meus passos largos e me enrola
em teus cabelos para dentro do passado.

repouso o livro
da peste de albert camus
sobre a mesa ao lado
do frango ao molho pardo.

do lado de fora,
ratos devoram a esperança.