4.8.15

ARRITMIA POÉTICA

À Cely Vilhena

  não existe silêncio quando se nasce poeta.
o sopro que me acompanha diariamente não é
     apenas do prolapso da válvula mitral diagnosticado
desde tenra idade, mas do mundo em possibilidades.

palavras mansas me vêm em brisa
          ao passar a mão em formas delicadas de vida
que são as flores da praça - todas batizadas com
    nomes de mulheres que amo, amei ou ainda amarei.

         palavras duras me vêm em tornado
de velocidade cinco na tentativa de arrancar a dor
    no peito que se alicerça sete metros abaixo da terra
e torna-se bunker impenetrável até para as palavras
        mais explosivas catalogadas em dicionários.

palavras escritas em agosto carregam em si
        desgosto por seus significados e aplicações.
despejadas em forma bruta, sem nenhuma lapidação,
retratam sentimento imediato como corte em que
o sangue ainda não coagulou, escancarando
                a fragilidade da presença do humano.

  escrever é confessar a si mesmo
          a ignorância de não saber escrever,
de não aplicar o pronome possessivo
    à pessoa correta como manda a gramática,
          de não usar a vírgula quando a pausa exige,
 de repetir incessantemente a mesma palavra
           e não oferecer fôlego suficiente ao leitor
    quando o espaço entre dois pontos finais
             é maior do que o oxigênio armazenado.

escrever é jamais fechar-se em ponto final,
pois não existe nada mais belo do que reticências
em pulsações de arritmia registradas
    em eletrocardiograma ou mesmo em poesia.

3.8.15

POEMA HEREGE

Ao Carlos Drummond

pequenas
formas indeléveis
inda rompem o asfalto
da cidade
do rio de janeiro.

     para além de sessenta anos,

formas, asfalto e rio avolumam-se
          pelo caráter residual que os unem.

esse chão

onde se sentou em horário
de tamanhas procissões de crimes e angústias
- heresias desde os arcos de santa tereza
e a insubordinação mental no colégio anchieta -
             não é mais o da capital do país.

a administração pública federal
subiu a serra e seguiu trilhas de mourão
que cortam cidades mineiras
              e desembocam no planalto central.
- esse último, centro de todas as fezes -


                   resta ao rio guindastesauros

à espreita dos homens desarmados.
hoje esses homens se escondem debaixo da terra.

a saudade de tom não alça voo pelo galeão.

- e como fere ao atravessar a nascimento silva! -
o adeus de caymmi, como as ondas, vai
                     e volta no infinito das despedidas.

de costas para o mar de copacabana

- talvez carregando em si as dores de minas -
a incapacidade de se explicar desbota-se
           em uma foto de recordação para algum
     país residual do leste europeu.

31.7.15

POEMA INFERNAL

Ao Arthur Rimbaud

     enclausurado
em vinte metros quadrados,
   tendo a única janela da casa vista
para o nada infinito e infernal,
           comunico-me com os mortos
    para me sentir mais vivo.

rimbaud tem sido meu melhor amigo.
alimento-me de tua maldição e alma inquieta,
          tua perna amputada pouco antes da morte,
  teus maus poemas escritos com sangue,
                teus comércios assinados com bala.

viajo ao inferno ao teu lado
        para retornar a esse mundo
e concluir que o verdadeiro inferno
não passa de mais um dia comum.

o espelho revela minhas costelas tortas,
       meus cabelos oleosos, minha barba malfeita,
minhas manchas de sol impregnadas no rosto,
meus olhos míopes que não enxergam o caminho,
    minhas marcas de cirurgia de vesícula biliar,
               meus braços finos e meus joelhos gastos.

sendo avesso, não posso esperar que
     poemas que escrevo alcancem o futuro.

morrem em mim, palavras e rimas,
         delírios sem álcool percorrendo veias
que tão claramente saltam da pele clara
    enquanto a alma escura emudece.

afogo minha mente no travesseiro.
as paredes não me sufocam mais do que
                   o reverberar dos pensamentos.

30.7.15

ACABA MUNDO DEBAIXO DOS PÉS


caminho pela rua professor morais
em busca da perdida esperança de outrora,
mas só me resta o pesar de teu enterro
debaixo dos pés dos transeuntes.

sete palmos me separam do passado,
do córrego acaba mundo enjaulado enquanto
bestas mastigam cachorros-quentes com
teus dentes remendados pelos dentistas.

a velha casa da maria das tranças
espia meus passos largos e me enrola
em teus cabelos para dentro do passado.

repouso o livro
da peste de albert camus
sobre a mesa ao lado
do frango ao molho pardo.

do lado de fora,
ratos devoram a esperança.

29.7.15

DELTA AQUARÍDEAS

Ao Humberto Werneck

a agência espacial norte-americana
admite que não possui plenamente explicada
a origem da chuva de meteoros delta aquarídeas,
apesar de tantos cientistas empenhados.

como morador da constelação de aquário
    e profundo conhecedor da cultura e calendário
desse exótico povo, sinto-me na obrigação
                   de finalmente explicar o ocorrido.

delta aquarídeas é um torneio de tênis amador,
organizado por ganímedes, prefeito da constelação
de aquário, envolvendo também as vizinhas
                        constelações de peixes e baleia.

a participação é aberta a todos os aquarianos.

os de carne e osso, inda presos à terra, necessitam
        viajar durante cinco minutos mentalmente
  até a constelação, sem taxa de embarque.
     os de alma e pena já são de casa e acomodam
           visitantes em tuas estrelas particulares.

jânio quadros inova com a vassoura
no lugar da raquete, capitão do time dos alma-pena
e grande esperança de melhores resultados.

bob marley, por outro lado, inda precisa treinar
          mais os saques, já que a maioria dos meteoros
     lançados por ele caem longe da quadra.
        - na terra esses saques são as estrelas cadentes -

paulo miklos, capitão do time dos carne-osso,
       trouxe os titãs para reforçar a base, embora haja
um pedido por parte dos alma-pena de escalação
irregular, pois não são todos aquarianos.

boris casoy argumenta que o torneio aquaríades
deve promover a liberdade, sendo contra a barragem
dos titãs. - isso é uma vergonha! - categorizou.

oscar schimidt e michael jordan vieram
só para discutir a possibilidade de também haver
torneio de basquete na próxima edição do evento.

thomas edison desenvolveu um saque elétrico
cheio de energia, capaz de quebrar qualquer defesa.
         mas sua dupla, tom jobim, inda anda desafinado
   nas recepções, gerando problema de equilíbrio.
              o cientista cogitou a mudança de tua dupla,
    mas carmen miranda atrapalharia a visão
                   com todos os apetrechos na cabeça.

fernando haddad propõe uma ciclovia
para ligar a terra e a constelação de aquário,
        mas houve um burburinho nos bastidores
   que chamou bem mais a atenção de todos.

era marcelo camelo querendo trazer
os los hermanos para o torneio e muitos dizendo
          que argentino ali não...

...e enquanto camelo tenta se explicar melhor,
humberto werneck, que não é bobo, não,
       escreve mais uma crônica para o estadão.

28.7.15

MERDA POMBAL


o busto do homem de barba esculpido
na praça da liberdade não corresponde mais
a um nome talhado em placa de bronze
levada pelos vândalos da madrugada.

homem taciturno,
libertou-se de teu passado de alteza
imperial precoce ainda que tarde,
ainda que algumas memórias
         apontem e soletrem
                  cada nome de batismo.

honrarias internacionais
para as pombas despejarem
dejetos em tua cabeça
tão logo rompe a manhã.

bem sei que não
informaram-te antes, seu pedro,
mas a estaticidade da vida após a morte
é mesmo uma merda pombal.